Linha 21


sábado, 11 de julho de 2026

Por Raquel Seiça


Quando pensas em autocarros, qual é a primeira imagem que te vem à mente? Um transporte lento e, na maior parte das vezes, turbulento. Apinhado de gente como sardinhas enlatadas. Corpos pressionados entre si numa tarde soalheira. Uns põem a conversa em dia com conhecidos, outros falam ao telefone com familiares ou amigos. Há risos, queixas, debates e roncos. Uma sinfonia desafinada, mas cheia de vida, que ecoa numa simples caixa retangular em movimento, feita de aço, alumínio e ferro.

Contudo, uma viagem de autocarro também pode ser uma escapadela do mundo lá fora. Através de um vidro sujo, marcado por dedadas, vemos a cidade a respirar e a passar como um filme e nós como os seus meros figurantes a assistir ao quotidiano dos transeuntes. Nem que seja apenas por alguns minutos, permanecemos nesta fachada libertadora até chegarmos ao nosso destino e voltarmos a uma realidade tão inevitável quanto fugidia.

É precisamente essa sensação que nos envolve em Linha 21, de Sónia M. Pereira.

Ao longo da obra, conhecemos e vivenciamos as vidas de várias mulheres, que, à primeira vista, parecem não ter nada em comum: uma vendedora de vestidos de noiva, uma motorista de autocarros, uma inspetora da PJ, uma carteirista, uma cardiologista, uma médica legista, uma prostituta toxicodependente, uma diretora de Recursos Humanos e muitas outras. Mulheres de diversas idades e nacionalidades – mães, filhas, amigas, amantes, desconhecidas –, ora perdidas, ora sozinhas e arrependidas, ora desprovidas de amor, em busca de um propósito, de um passado por resolver, de uma oportunidade para reconstruir as suas vidas. Com o autocarro como palco e as memórias como guião, as vidas destas mulheres são tocadas de uma maneira inimaginável. Os seus destinos vão sendo traçados à medida que as suas linhas temporais – passado e presente, antes e depois – se entrelaçam através de beijos ofegantes e toques íntimos, segredos sussurrados nos ouvidos errados e papelinhos manuscritos deixados na gavetinha de um bar. Tal como as ruas, becos, vielas, avenidas e escadarias, as histórias destas mulheres também formam as veias que irrigam este organismo vivo a que chamamos de cidade.

Através de uma escrita apaixonante, nua e crua, Sónia Pereira deleita-nos com uma leitura que nos prende da primeira à última página e nos faz questionar sobre o verdadeiro significado do amor, da liberdade e da realidade. Sob diferentes perspetivas e encontros casuais e inesperados, estas mulheres empoderam-se, absorvem-se e embebedam-se umas das outras, encontrando nessa partilha aceitação, alívio e esperança. De certa forma, esta história explora a realidade de muitas mulheres, subjugadas pelos namorados abusivos e maridos infiéis, presas a gravidezes indesejadas, julgadas pela maneira como gostam de se vestir, ridicularizadas pelas suas figuras e marginalizadas em relação às suas orientações sexuais e à cor da pele.

No entanto, mesmo quando somos traídos, rejeitados ou violentados pelas pessoas que, supostamente, nos eram mais próximas, que nos deviam conhecer melhor do que ninguém, haverá sempre um rosto desconhecido que compreende essa dor, porque também a viveu. Alguém que sabe como é se sentir sufocado pela corda umbilical da vida, vagueando num completo vazio sem rumo e sem ninguém para as aparar.

No fundo, a beleza desta obra é que nos reconforta com a ideia de que não estamos verdadeiramente sozinhos. Existe sempre a possibilidade de recomeçar do zero, de costurar novas relações, de encontrar alguém que nos aceite tal como somos. Um novo capítulo que pode começar a partir de um simples afago nos cabelos, de uma troca de olhares à beira do rio Douro ou de um breve e inocente toque de mãos no varão metálico de um autocarro.

Linha 21 (2026)

Texto: Sónia M. Pereira

Editora: Visgarolho Editora

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