quinta-feira, 24 de julho de 2025
Por Raquel Seiça
Agora que preparaste o ambiente à tua volta – o teu espaço de escrita –, está na hora de agarrar na caneta (ou no computador, conforme a tua preferência) e deixar a inspiração e a criatividade falarem.
Contudo, sentes que a tua escrita está a soar forçada? Que certas cenas não têm nexo, que estão repletas de lacunas? Como se a história tivesse perdido o seu rumo e tu estivesses a ligar aleatoriamente fios vermelhos num quadro de cortiça, à procura de desvendar um crime, apenas para acabares num beco sem saída? Horas e horas em busca de ideias consideradas “suficientemente originais” ao ponto de atingir o esgotamento?
Se é esse o caso, talvez devas perguntar a ti mesmo(a) o seguinte: queres ser original ou autêntico(a)?
Não há mal nenhum em querer que a nossa história se destaque, que tenha um toque de originalidade. No entanto, segundo Chris Angelis, se a originalidade não for equilibrada, o excesso pode resultar numa narrativa incoerente (Angelis, 2024). Ao cair na ilusão da originalidade e forçar ideias incompatíveis a se juntarem apenas para criar algo considerado “original”, maior são as probabilidades de criarmos um texto ininteligível.
A partir deste ponto de vista, talvez a originalidade não seja o verdadeiro cerne da escrita criativa. A verdade é que, hoje em dia, é cada vez mais difícil criar algo totalmente novo. De acordo com Camilla Allegrucci, a nossa mente vai, de forma automática e inconsciente, buscar referências às músicas que ouvimos, às conversas que temos, aos filmes e séries que vimos, aos livros que lemos e às pessoas com quem convivemos (Allegrucci, 2021). Em suma, a tão ambicionada “originalidade” nasce daquilo que experienciamos — tem sempre como base algo que já existe.
Vejamos, por exemplo, as teses e os relatórios académicos. Somos aconselhados a ser originais, mas “originais” em que sentido? Mesmo que abordemos um tema inédito, essa ideia não surgiu do nada — é fruto da leitura, da análise de fontes, do cruzamento de ideias e argumentos. Da mesma forma que as histórias que escrevemos — os diálogos, as ações, os ambientes, as personagens — contêm sempre traços do mundo real. A verdadeira originalidade reside em nós, na nossa história de vida. Nas nossas vivências, emoções, escolhas e formas de ver o mundo. E aplicar isso na escrita não é uma questão de ser original, mas sim de ser autêntico!

Ultimamente, vemos tantos livros de romcom, enemies to lovers, cozy fantasy e dark romance a serem publicados, similares quanto à sequência de eventos, no entanto, uns acabam por se destacar mais do que outros. Porque será? Talvez porque a escrita de uns torna as personagens mais humanas, as cenas mais impactantes, as emoções mais reais… No final, regressamos sempre ao mesmo: à qualidade da escrita, à voz autêntica do(a) autor(a).
A partir do momento em que começas a escrever, a tua preocupação principal envolve treinar a tua voz literária, comunicar contigo mesmo(a). Saber que expressões e palavras usar, como personificar as tuas emoções, como garantir que a tua mensagem é transmitida… A nossa escrita faz parte da nossa história, quer seja através de uma perspetiva nua e crua, quer seja através do elemento fictício e fantasioso, pois será sempre diferente da dos demais.
Em suma, o que torna a nossa escrita única não é elaborar uma narrativa de outro mundo, é saber expressar com clareza, organizar estrategicamente as nossas ideias, comunicar com as nossas palavras o que pensamos e sentimos… Tal como defende Miguel Esteves Cardoso, em Como Escrever, “Aí está a sua originalidade: ser você mesmo (…) Você é o tema da sua vida” (Cardoso, p. 41).
Bibliografia:
Cardoso, M. E. (2024). Como Escrever. (1ª edição, pp. 39-41). Bertrand Editora.
Webgrafia:
Allegrucci, C. (2021, 25 de março). The Myth of Originality: Why Your Voice Is More Important Than New Ideas. Craft Your Content. https://www.craftyourcontent.com/the-myth-of-originality/
Angelis, C. (2024, 19 de agosto). Authentic Writing: Going Beyond “Originality”. Home for Fiction. https://blog.homeforfiction.com/2024/08/19/authentic-writing-originality/
Wang, J. (2024, 23 de dezembro). Writing, Originality, and Why Does Anyone Care What I Write About? Weighty Thoughts. https://weightythoughts.com/p/writing-originality-and-why-does