Será de Madrugada


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Por Raquel Seiça


Uma mansão imponente com um passado sombrio, o soalho a ranger, passos que se fazem ouvir do outro lado da porta, visões, possessões, presenças sinistras que espreitam pelos cantos mais obscuros, aparições sobrenaturais captadas pela câmara… Tudo aquilo que podemos esperar de uma história de terror, sem deixar de lado aquela pitada de suspense que torna o enredo ainda mais arrepiante e promissor. Uma história que nos faz ansiar e, simultaneamente, temer a chegada da madrugada, quando nos apercebemos de que o pesadelo não passava só de um pesadelo…

Em Será de Madrugada, de Raquel Fontão, conhecemos João, um pianista portuense que toca num clube tangueiro. Amargurado, frustrado, miserável e assombrado pelas memórias de uma infância destroçada, vive de um emprego mal pago e num apartamento deteriorado com cheiro a mofo e baratas como companhia. Para além de ser um pianista sem sonhos e um alcoólico que afoga as suas mágoas no fundo da bebida – tal como o próprio pai –, João acaba por perder o emprego após uma desavença com o patrão. À beira da miséria, a vida parece já não ter qualquer sentido, até ao momento em que se depara com uma inesperada oferta de emprego como técnico de som para um projeto na Argentina, com todas as despesas pagas. Um novo emprego. Um novo começo. Uma oportunidade única. Ou, pelo menos, era o que parecia ao início… Mal sabia João o que realmente o aguardava por entre o calor sufocante e as densas e imponentes palmeiras da Argentina.

Uma vez no solo argentino, João é levado para uma casa senhorial no meio da selva, onde conhece Carlos, o chefe da equipa; Nuno, o cameraman; Clara Romero, a proprietária da casa; e a sua sobrinha, Maria Romero. É aí que ele descobre a verdadeira razão deste trabalho: filmar e capturar o fantasma que, noite após noite, assombra a propriedade que outrora pertencia ao pai de Clara. Quando dá por si, João encontra-se embrenhado no meio de uma teia de secretismo, sedução, desgosto, paixão e assombrações, tentando sobreviver todas as noites numa casa degradada, parada no tempo e separada da realidade. Um lugar que, durante anos, acumulou segredos obscuros e o sofrimento suportado ali. Uma vez lá dentro, nada garante que sairás daquela casa com a mente e o espírito intactos… Ou sequer com vida. Conseguirá a nossa equipa de caça-fantasmas descobrir quem é a entidade que os assombra? Conseguirão escapar daquela casa antes do despontar da madrugada?

Com a sua escrita sedutora e melodiosa, de uma beleza fantasmagórica, Raquel Fontão prende-nos desde a primeira até à última página, fazendo-nos devorar a obra num ápice e dançar, absortos, ao som de milongas, e combina elementos sobrenaturais com uma vertente mais humana, explorando temas como o alcoolismo, a depressão, o trauma, a perda, a culpa e a possibilidade de recomeçar.

Em suma, é a leitura de verão ideal para fãs de terror gótico e horror como eu, pois, mais do que uma história de fantasmas, esta obra é uma viagem, não só pelos recantos mais sombrios de uma casa antiga com anos de história, mas também da nossa mente, onde, nos nossos momentos mais vulneráveis e instáveis, os demónios interiores assumem o controlo, deixando um rasto de infortúnios, remorsos e tragédias dos quais não há como voltar atrás.


Sobre a autora, Raquel Fontão nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal. Entrelaçou, desde cedo, os universos da música e da escrita. Estudou Saxofone na ESMAE e licenciou-se em Professora do Ensino Básico variante Educação Musical na ESEP. Atualmente, trabalha como professora de música e adora escrever todos os dias, transfigurando harmonias em texto. A sua predileção pelo modo menor faz com que o género de terror seja o seu preferido, perseguindo, com gosto, os monstros que a habitam.

Sobre a editora, Editorial Divergência é uma editora centrada na ficção contemporânea que aposta nos escritores nacionais, promovendo-os tanto em Portugal como além fronteiras. Cria edições acessíveis e de qualidade, com regularidade e com todo o rigor.

Será de Madrugada (2024)

Texto: Raquel Fontão

Editora: Editorial Divergência

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